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9 fev 2017
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Futebol feminino e o machismo nos espaços de jogo

Aurora FC - #JogaPraElas

Eles costumavam jogar vôlei na quadra do condomínio às terças. Era quarta-feira e nos reunimos pela primeira vez para começar um grupo fixo de futebol feminino. Estávamos em cinco, ele chegou com mais dois homens e instalou a rede para começar a partida deles, como se nem existíssemos. Foi ali que a maioria de nós se conheceu: quando tivemos que reivindicar o direito de jogar na quadra.

A nossa partida estava marcada há dias por uma das jogadoras, moradora do condomínio, dissemos. Ele rebateu que a prioridade era dele. Gritou com a gente e disse que não se importava e que quem jogaria era eles. Gritamos de volta, a vez era nossa, íamos lutar por ela. Ele debochou de nós: “Toda irritadinha…”, disse, provocando. Os outros que o acompanhavam fingiram que não viam as agressões ou tentavam silenciar nosso grupo: “melhor vocês não discutirem”. Perdemos.

Decidimos que ia ter jogo de qualquer maneira e, assim, chegamos à quadra da Rua da Aurora, que já estava ocupada por uma partida de futebol masculino. Checamos com eles que hora terminava. Decidimos aguardar e montamos barrinha no estacionamento do lado, onde marcamos os primeiros gols. Esperamos por mais de uma hora e quando perguntamos que horas terminava recebemos respostas irônicas e desdém. Mais uma vez.

Pensamos que em um dia diferente da semana poderia ser mais fácil conseguir um horário livre e voltamos à Aurora na segunda seguinte. Chegando lá, nova disputa a ser travada. Um outro grupo masculino forçava seu jogo em vez do nosso, mesmo o nosso grupo tendo chegado antes à quadra. “Nós temos mais direito que vocês. É questão de hierarquia”, um deles disse. Hierarquia? Sim, a “hierarquia” fruto do machismo, que dá mais direito aos espaços de jogo a homens do que a mulheres. Simplesmente porque são homens, nada mais.

É só observar as quadras, campos e espaços públicos de esportes em diversos locais para ver que eles são muito mais ocupados por homens. A “hierarquia” que o nosso oponente evocou está implícita e quem, como nós, resolver desafiá-la vai precisar de muita energia para lidar com possíveis enfrentamentos. Sentimos o peso dessa negação do espaço, da opressão dos “donos da quadra” mais de uma vez, por uma coisa que parece muito simples: jogar bola.

Isso aconteceu há pouco mais de um ano. Desde então, semanalmente, o nosso grupo joga às segundas na quadra pública pela qual tivemos que lutar para usar. A pelada ganhou mais integrantes e nome: Aurora F.C. O machismo tentou nos afastar do espaço público, nos calar, nos impedir de jogar. Nós ocupamos, resistimos e persistimos! #JogaPraElas

27 dez 2016
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Livros, filmes e séries de 2016

Fim de ano é tempo de retrospectiva e expectativa, de pensar no que foi feito ou no que se quer fazer no ano que vem. Resolvi não fugir do clichê das listas e divido o que eu andei lendo e assistindo este 2016. Foi um ano que fiquei pela metade no meu desafio de leitura do Goodreads, li mais livros digitais que em papel (deixei 99% dos meus livros no Recife na mudança pra Montevidéu e abracei, em definitivo, o meu Kindle como queridinho) e de MUITO binge-watching de séries. Exceto pelos filmes, as listas não obedecem nenhuma ordem de preferência, leitura, etc..

Séries

bingewatching

  1. Modern Family (3 últimas temporadas)
  2. Game of Thrones
  3. House of Cards
  4. Grace & Frankie (todas as temporadas)
  5. The Office (todas as temporadas)
  6. Stranger Things
  7. Master of None
  8. Cuba Libre (1a temporada)
  9. How to Get Away With Murder (1a temporada)
  10. Sherlock Holmes (todas as temporadas)
  11. Homeland (3 últimas temporadas)
  12. Black Mirror (todas as temporadas)

Filmes

cinema

  1. Star Wars VII – O Despertar da Força (Janeiro)
  2. Peanuts: O filme (janeiro)
  3. As Sufragistas (Janeiro)
  4. Spotlight (janeiro)
  5. Joy (janeiro)
  6. Vida de Inseto (fevereiro)
  7. Ida (fevereiro)
  8. Valente (abril)
  9. O que fizemos no fim de semana (abril)
  10. Ele está de volta (abril)
  11. This is England (abril)
  12. Special Correspondents (maio)
  13. Thelma & Louise (maio)
  14. Fundamentals of Caring (Julho)
  15. Que Horas ela volta? (Julho)
  16. Her (Julho)
  17. Nueva Venecia (Agosto)
  18. Onde fica a casa do meu amigo? (Agosto)
  19. Victoria (Setembro)
  20. Havana Moon – Rolling Stones em Cuba (Setembro)
  21. Distante nós vamos (Outubro)
  22. Os Oito Odiados (outubro)
  23. Keith Richards – Under the Influence (outubro)
  24. Tallulah (outubro)
  25. Amy (novembro)
  26. A single man (novembro)
  27. O zen de Tony Bennet (novembro)
  28. Aquarius (novembro)
  29. Happy – documentário (novembro)
  30. DivertidaMente (dezembro)

Livros (só os que eu finalizei a leitura este ano. Comecei a ler e parei algumas coisas pelo caminho)

books

  1. A Obscena Senhora D, Hilda Hilst
  2. A Humilhação, Philip Roth
  3. Sejamos Todos Feministas, Chimamanda Ngozi Adichie
  4. Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie
  5. Amuleto, Roberto Bolaño
  6. A Amiga Genial, Elena Ferrante
  7. História do Novo Sobrenome, Elena Ferrante
  8. História de quem foge e de quem fica, Elena Ferrante
  9. Dois Irmãos, Milton Hatoum
  10. A vida Oculta de Fernando Pessoa, André Morgado e Alexandre Leoni (graphic novel)

Leituras em andamento

  1. Amiga da Juventude, Alice Munro
  2. Sobre a Arte de Viver, Roman Krznaric
  3. Diante da Dor dos Outros, Susan Sontag

Michael - The Office

14 set 2016
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No meu prédio tem um fantasma

Palácio Salvo - foto de Larissa Brainer

“Mentira.” É sempre a primeira coisa que me dizem quando falo: “Tem um fantasma no meu prédio”. Não é mentira. Verdade que nunca o vi. Mas ele tem nome e sobrenome: Pedro Salvo. Dizem que é do tipo camarada, já alertou uma moradora sobre um incêndio, salvou um ex-morador de um assalto e impediu que uma menininha caísse das escadas. Usa cartola, bengala, paletó e gravata. Um distinto senhor dos anos 1920.

Contam que morreu por encomenda do genro. Atropelado, uma tragédia. Acabou ficando pelo prédio que, cinco anos antes, construiu junto com os irmãos, como legado para Montevidéu: o Palácio Salvo.

Ninguém sabe dizer porque dos mais de 20 pavimentos do edifício, onde ele nunca viveu, Pedro escolheu justo o 7°. Relatos dão conta que, às vezes, o elevador para no andar, abre as portas, mas não se vê ninguém entrando. Aqui em casa já fomos testemunhas.

Para além da personalidade histórica da cidade, Pedro se tornou lenda urbana. Hoje é pauta de conversas e até de mini-documentário.

O que eu penso disso? Bom, “yo no creo en los fantasmas pero que los hay, los hay”.

2 mar 2016
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Rolling Stones: assistir a lendas vivas do rock é transcender um pouco.

Ao entrar no estádio do Morumbi, em São Paulo, nos primeiros acordes de Start Me Up, nós corremos no meio da multidão até encontrar um lugar para chamar de nosso naquelas próximas horas do show dos Rolling Stones. Há anos eu queria esse show. Não fiquei no melhor lugar, mas de onde eu estava, pude sentir toda a força que vinha daqueles homens-quase-mito no palco.

Depois de anos de desejo e meses de espera concreta, finalmente, estava tudo lá. A dança e a performance de Jagger, o mito Keith Richards, Ron Wood e seus cigarros e Charlie Watts, parecendo um vovozinho. No meio de milhares, eu estava lá. E os vi.

Ver lendas do rock ao vivo é como ver semi-deuses, forças da natureza manifestas. Gente que com Arte consegue mobilizar milhares, multidões. Pessoas de gerações, personalidades, gostos, contextos diferentes, movidas pelo mesmo combustível, se encontrando no mesmo lugar para cantar as mesmas músicas em coro, se emocionar juntas…

Rolling Stones no Morumbi, São Paulo, 2016.

De longe, tremida, a única foto do show.

Ouvi uma menina falando e eu mesma tinha dito, pouco antes, em tom de espanto e certa devoção: “eles estão vivos!”. Sim. E todas as décadas de trabalho da banda, de alguma forma, em algum ponto do tempo, se encontraram com a minha própria história e essa soma resultou naquele exato momento em que eu estava lá, meio incrédula, sem conseguir nem cantar, só para ouvir melhor Beast of Burden. Sentindo a vida na pele, sem abstração, totalmente presente naquele tempo e espaço, quase uma meditação.

“Eu me sinto infinita”, eu poderia ter dito ali, como o adolescente protagonista de As Vantagens de Ser Invisível. Um show feito por quem já viveu quase três vezes os anos que eu vivi, e que, pela ordem natural das coisas, vai embora dessa Terra pouco mais adiante, me fazendo observar infinitude, História e eternidade, transcendendo um pouco.

Um amigo disse antes do show: “não dá nem para acreditar que daqui a pouco tudo isso vai deixar de existir, vai ser só uma coisa a ser lembrada”. 24 de fevereiro de 2016: o dia em que eu vi Rolling Stones já virou história, se desmanchou no ar. Escrevo para não deixar escapar a brisa que ele deixou.

A sensação de que o tempo poderia parar ali nos fez perseguir o momento mais uma vez, tentar repetir a dose… É meio vício, you can’t get no satisfaction. Não deu, infelizmente. You can’t always get what you want, you get what you need, afinal.

Na saída, o sorriso indiscutível.

19 nov 2015
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Qual a cidade que precisamos? – Urban Thinkers Campus Recife e uma cidade inclusiva

Urban Thinkers Campus Recife. A cidade que precisamos.  Cidades Inclusivas - jovens e tecnologias abertas no espaço urbano. Urban labs. InCiti.

Uma cidade com crianças na rua, várias, brincando, andando por aí, se divertindo. Em que cadeirantes, cegos e idosos se deslocassem sem dificuldade e pedestres não precisassem se arriscar para cruzar uma pista ou andar longas distâncias para atravessar com segurança. Uma cidade em que pessoas de bairros distintos (centro e periferia) compartilhassem os mesmos espaços, sem noias, medos, estranhezas. Cheia de gente na rua, de manhã cedo, no almoço, à noite. Com praças abertas, gramados ocupados por piqueniques, esteiras, animais de estimação, jogo de futebol, adolescentes rindo alto, bebês, namorados, gente tomando sol, lendo… Uma cidade em que todas as partes se conectam.

Essas são algumas das coisas que eu queria na cidade. Cada um quer uma coisa e uma cidade é feita de muitas pessoas, que às vezes, querem coisas totalmente diferentes. Logo, pensar uma cidade exige refletir e discutir o que é necessário para toda a variedade de seres humanos que vive nela.

Urban Thinkers Campus Recife. A cidade que precisamos. Cidades Inclusivas - jovens e tecnologias abertas no espaço urbano. Urban labs. Inciti.

Aí que entra o Urban Thinkers Campus (UTC – Campus Pensadores Urbanos, em inglês), evento da ONU, que acontece em várias cidades do mundo e vai rolar no Recife – organizado pelo InCiti, grupo de Inovação e Pesquisa Para as Cidades, da UFPE – entre os dias 24 e 27 de novembro.

“Não vale mais definir a cidade de cima para baixo. É preciso juntar todas essas forças, todos os saberes e construir” – Roberto Montezuma, arquiteto e diretor do InCiti.

O UTC faz parte de um movimento para repensar a cidade como conceito, já que em breve, a maior parte da população mundial será urbana. O nome “campus” implica que não se trata de um seminário, algo em que as pessoas vão para ouvir, para ver, mas para trabalhar, construir.

Todos os dias, mesas vão expor temas a partir do escopo da edição recifense (“Cidades Inclusivas – jovens e tecnologias abertas no espaço urbano“), que serão discutidos e colocados em um documento a ser levado para a Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável, que acontece a cada 20 anos. A próxima será em 2016, no Equador.

Urban Thinkers Campus Recife. A cidade que precisamos. Cidades Inclusivas - jovens e tecnologias abertas no espaço urbano. Urban labs.

Se uma cidade é um lugar de vivências distintas (já parou para pensar que o Recife da Boa Vista é diferente do Recife de Boa Viagem, que é bem diferente do Recife do Cordeiro ou do Morro da Conceição?! E tenho certeza que todas as cidades têm isso.), “um caldeirão de reflexões, um tecido altamente complexo”, o que vem a ser uma cidade inclusiva?

“É uma cidade que permite o encontro desses territórios diferentes” – Ricardo Brazileiro, coordenador de projetos do InCiti.

Qual o papel das tecnologias nisso tudo? Amplifica narrativas, cria novas camadas de experiências, dá voz, aproxima vivências, multiplica, CONECTA. E, olha, conexão é algo que precisamos. Entre indivíduos, entre bairros, entre grupos sociais, culturais…

Urban Thinkers Campus Recife. A cidade que precisamos. Cidades Inclusivas - jovens e tecnologias abertas no espaço urbano. Urban labs. Inciti.

Coração neon sobre a rua. Ele palpita quando detecta pessoas próximas.

Os temas que vão ser abordados no UTC – Recife são dos mais inspiradores: cultura e cidade | cidades inteligentes e ativismo tecnosocial | protagonismo da periferia na transformação urbana | tecnocidades | espaço público e mobilização social | moradia e identidades | cidades sensitivas, cidades inclusivas | cidades resilientes | juventude e tecnologias abertas. Vamos discutir a cidade que precisamos!

Fotos: InCiti