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27 out 2015
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Benfeitoria: Financiamento coletivo e ideias que valem ser compartilhadas

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A Benfeitoria é uma plataforma de crowdfunding com foco no bem comum. Um negócio social que “nasceu para fomentar uma cultura mais humana, colaborativa e realizadora no Brasil”. Tem vários projetos legais lá buscando apoio e vale a pena conhecer. Dentro da plataforma ainda dá para aprender a botar sua ideia no ar na Universidade do Financiamento Coletivo. Outra frente da Benfeitoria é o financiamento coletivo contínuo, a Recorrente, que permite captar recursos mensalmente – a love.fútbol Brasil, ONG em que eu trabalho, está lá.

Por não cobrar comissão, a Benfeitoria também se vale da Recorrente para se manter. Por admirar muito o trabalho da galera e acreditar no que fazem, me tornei apoiadora, ou como se chama por lá, uma sócia-benfeitora. Das contrapartidas pelo apoio, uma é o #TEDcompipoca, espécie de jogo de cartas em que cada uma representa um TED Talk selecionado especialmente para o apoiadores.

Eu sou absolutamente viciada em TEDs. Assisto pelo menos um todos os dias. É bom para conhecer histórias de pessoas incríveis pelo mundo, para entrar em contato com novas ideias, enfim, se inspirar. Quando recebi a caixa com o #TEDcompipoca – que leva esse nome por ser literal: junto com o “baralho” vem uma pipoca de microondas – separei vários por ordem de prioridade para mergulhar nessa seleção. Por alguns dias, não vou precisar ficar procurando TEDs legais para assistir. Bastar puxar uma “carta”.

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Economia colaborativa, criatividade, Educação, trabalho com propósito e impacto social são alguns dos temas. Um trabalho de curadoria bem legal da equipe Benfeitoria, sintonizado com o espírito de quem acompanha os projetos que rolam por lá e embalado em um produto lúdico, “gamificado“, de design simples e bem bonito.

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Curtiu? Corre lá para conhecer mais do trabalho bacana que é feito na Benfeitoria. 🙂

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Sobre ser Selvática e subverter regras

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Embaixo d’água, com a respiração suspensa, a única coisa que consigo escutar é um ruído contínuo, surdo, abafado. Estar na banheira vazia foi como um mergulho. Ao entrar, prendi a respiração e afundei. Deitada nela, meus ouvidos zuniam e, então, taparam. Meu coração batia tão forte que me fazia vibrar inteira. Era o único som que eu ouvia perfeitamente. Tum. Tum. Tum. As instruções de Beto, a voz de Jua, a conversa das mulheres no terraço, tudo soava tão distante que eu mal conseguia assimilar. Respirei fundo e me desprendi.

Na banheira do pequeno latifúndio eu mergulhei na minha liberdade. Ao sair, assinei minha alforria.


Entre o “eu topo” e a foto, foram dias de frio na barriga e ansiedade. Dias de pensamentos recorrentes que iam desde aos clássicos “o que vão pensar? o que vão falar?” a “isso pode me prejudicar no futuro? Pode ser usado contra mim de alguma forma?”. Em conversas com outras mulheres, as mesmas dúvidas, os mesmos medos. Um bloqueio real incutido na minha cabeça e na de tantas mulheres por uma cultura que nos sexualiza ao máximo, nos aprisiona, nos desnaturaliza, tornando até um gesto simples como a amamentação em algo ofensivo.

“Para mim que sofri e sei que muitas mulheres sofreram alguma forma de constrangimento por simplesmente amamentar seu filho em público (um horror), numa tentativa de castração do corpo, a ideia de participar de um ensaio que visava expor os seios de mulheres e desvinculá-los da sexualização do corpo feminino, me parecia muito oportuna. De cara pedi a Beto que eu toparia participar sob a condição de meu filho estar junto a mim. Eu fui muito na instiga de registrar que os seios são uma fonte de alimento mesmo, no meu caso.” (Clara, uma das fotografadas)

Apesar de todos os medos, segui em frente com a motivação de lutar contra a auto-censura imposta pela sociedade que vê meu corpo com maus olhos. O resultado desse mergulho sem camisa é estar entre outras mulheres de peitos e mentes abertas em uma “ação-arte-manifesto” por nossa liberdade. E se isso isso é ser “subversiva”, aceito a pecha. Prefiro isso que entrar na fila do “porque é assim mesmo”. Meu desejo é um só: que cada vez mais pessoas percebam o corpo como natural, bonito, livre.

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Selváticas não é um trabalho erótico (ou seja: uma representação explícita da sexualidade), como não é a capa do disco de Karina Buhr, censurada no Facebook, como não eram tantas imagens compartilhadas em apoio à cantora e mesmo assim sofreram bloqueios. O seio, o corpo, per si, não são eróticos. Comparar imagens de seios de mulheres ao natural a cenas de sexo não é só um equívoco, como serve brutalmente a uma sociedade, a um conjunto de regras que nos castram a todos (homens também). Foi para contestar esse tipo de pensamento, para subverter essas regras – que norteiam, inclusive, o Facebook – que tantas pessoas tiraram a camisa em prol da capa de Karina. Por isso, surgiu o Selváticas.

“selváticas me toca fundo pois estamos falando de liberdade. não só da liberdade nas redes sociais mas na vida, a real. depois que saí do pequeno latifúndio me peguei pensando nas mil censuras que a gente se auto impõe de forma tão natural que nem se dá conta.. fiquei com medo da repercussão, do comentário da parte da família mais careta e dos machistinhas desse meu recife província. e no trabalho, como seria? e o namorado, o que acharia? senti vergonha do meu corpo. sim. senti. eu que tanto falo sobre aceitar o corpo, viver o corpo, ser o corpo.. entrei em crise, mas não pensei em desistir.. resolvi enfrentar.. e sentir o que fosse preciso. hoje vendo isso publicado sinto um negócio tão forte que me encheu de certeza que eu não poderia ter feito outra coisa a não ser viver isso, todo o processo, da empolgação em mobilizar as mulher toda, do frio da barriga de quando entrei na banheira, da insônia absurda do medo que senti, até agora, nesse êxtase que sinto.. me permitir esse encontro comigo mesma foi transformador.” (Pri, uma das fotografadas)

Em tempo: O corpo sou eu, o peito sou eu, faço o que eu quiser. Eu sou livre, você é livre (inclusive para não tirar a camisa, se assim preferir). Ser um corpo e ter peito é normal, todos somos, todos temos.

Escrito ao som do novo disco de Karina Buhr, Selvática.

22 set 2015
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Preâmbulo às instruções para usar um smartphone

Ph: Michael Davis-Burchat

Pense nisto: quando dão a você de presente um smartphone estão dando um pequeno inferno faiscante, uma tela de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o celular, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, da maçã e com tela de cristal; não dão de presente somente esse miúdo peso que você atracará ao bolso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser agarrado a seu corpo como uma pessoinha desesperada colada à sua mão. Dão a necessidade de carregá-lo todos os dias, a obrigação de colocá-lo na tomada para que continue sendo um smartphone; dão a obsessão de olhar as notificações a todo instante, as redes sociais, as mensagens. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu smartphone aos outros smartphones. Não dão um celular, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do smartphone.

Há muitos anos, Julio Cortázar escreveu “Preâmbulo às Instruções para dar Corda no Relógio“. Com a maior deferência, fiz essa humilde releitura. Dedico a todes que, como eu, são escravos dessas incríveis (e também terríveis) telinhas.

Foto: Michael Davis-Burchat

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Não leia comentários na internet. Escreva.

André Dahmer gênio.

André Dahmer gênio.

“Não leia os comentários. Não leia os comentários. Não leia os comentários.” Uma postagem recorrente na minha timeline. Repetida como um mantra, para internalizar mesmo. Sustentar a “fé na humanidade” para várias pessoas passa por eliminar o contato com as caixas de comentários em blogs (principalmente de política, mas nem sempre), sites de notícia e no próprio Facebook.

Quase todo dia, vejo alguém reclamar do conteúdo muitas vezes racista, virulento, misógino, sexista, intolerante, violento, de um modo geral, do que alguns até chegam a chamar de “esgoto da internet”, que é a “caixa de comentários”. O pessoal lá do MIT até publicou um livro (quero muito ler!) sobre o assunto, Reading the Comments – Likers, Haters, and Manipulators at the Bottom of the Web. O resumo da publicação diz:

“Os comentários online podem ser informativos ou enganadores, divertidos ou desesperadores. Os cheios de ódio e os manipuladores com frequência parecem monopolizar a conversa. Alguns comentários são fora do assunto ou mesmo não têm assunto algum. Neste livro, Joseph Reagle nos estimula a ler os comentários. Conversas ‘na parte de baixo da internet’, ele defende, podem nos dizer muito sobre a natureza humana e o comportamento social.”

Concordo. Mas é bem difícil manter uma atitude positiva com o mundo, quando a voz predominante na internet é tão negativa.

“Um bombardeio de negatividade derrubou minhas defesas, expondo um lado tão cruel, sem sentimentos e implacável da humanidade que elevou a minha sensação de vazio existencial.”

Quem nunca se sentiu assim? Eu, diversas vezes, e sempre que isso acontece penso: não leia os comentários.

O depoimento acima é da editora de mídias sociais do TED Nadia Goodman em um texto no IDEAS.TED.COM, que fala como a página administrou a enxurrada de comentários agressivos contra Monica Lewinsky, personagem de um escândalo na Casa Branca quando Bill Clinton era presidente dos EUA, no post do TED Talk dela. Traduzi e publiquei a versão em português desse texto de Nadia aqui: Como prevenir o bullying online com um comentário no Facebook.

A postura que eles tomaram, de excluir os comentários violentos e valorizar os positivos, gerou uma onda diferente da que começou assim que o post foi publicado (bem violenta): à medida que o que era positivo e não-agressivo foi mais valorizado, mais pessoas se manifestaram positivamente. Todos os veículos de comunicação sérios com presença digital deveriam adotar política similar, na minha opinião, para cumprirem a função pedagógica que têm com a sociedade.

Como indivíduo, há um tempo venho pensando em mudar minha postura. Continuo preferindo não ler os comentários. Mas, agora, vou escrevê-los também. E usar a minha voz para ajudar a criar mais espaço para outras vozes que não carreguem tanto ódio e violência nos discursos.

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Para ler mais sobre o assunto: O terrível mundo dos comentários na Internet |
A vida de um moderador de comentários na internet | UNESCO lança estudo sobre como enfrentar discursos de ódio na Internet.

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Cosmos e As irmãs do Sol – um resgate histórico de mulheres cientistas

Universo, estrelas, planetas me interessam desde criança. Entre professora dos ursos de pelúcia e arqueóloga-Indiana-Jones eu quis ser astrofísica (não sabia que era assim que chamava a profissão, na minha cabeça de criança era só “cientista”). Também desejei um telescópio e um quarto com telhado transparente para dormir olhando o céu (eu morava numa casa). Não segui a carreira, virei jornalista, mas o gosto se reflete até hoje e me levou a uma série que adoro: Cosmos.

Além de todas as coisas incríveis que a série – remake de uma dos anos 1980, de Carl Sagan – traz, um episódio em particular me chamou a atenção: As irmãs do sol, que faz um resgate muito importante de um grupo de mulheres responsáveis por grandes descobertas no campo da astronomia. As “Computadores de Harvard“, como ficaram conhecidas, eram cientistas contratadas pelo diretor do Observatório da Universidade de Harvard para processar dados astronômicos.

Não bastassem as dificuldades da época (uma das razões apontadas pela opção de contratar mulheres é que elas recebiam bem menos que homens), ainda ficaram conhecidas popularmente como Harém de Pickering.

Foto de 1913: Não bastassem as dificuldades da época (uma das razões apontadas pela opção de contratar mulheres é que elas recebiam bem menos que homens), ainda ficaram conhecidas popularmente como Harém de Pickering.

Mulheres como Annie Jump Cannon, líder da equipe, que criou um método para catalogar estrelas – fez isso com 250 mil! – ou Henrietta Swan Leavitt, que descobriu a lei que os astrônomos ainda hoje usam pra medir o tamanho do Universo e Cecilia Payne, que precisou sair do Reino Unido para os Estados Unidos, onde não era proibido às mulheres estudar astronomia/astrofísica, e foi a primeira pessoa a mostrar que o Sol é composto principalmente de hidrogênio.

Esse episódio me fez pensar muito sobre como grandes mulheres são esquecidas da História ou são tomadas como menores. Quantas cientistas, matemáticas, astronautas, etc. não foram perdidas na linha do tempo do mundo por falta de oportunidades e estímulo? Ao mesmo tempo, quantas Annies, Cecilias, Henriettas e outras tantas, que apesar de todos os percalços, conseguiram seguir em frente e alcançar o que queriam, mas tiveram as realizações pouco ou nada difundidas e marcadas nos livros de História?!

 

Por que será?!

Por que será?!

Mulheres como a astrofísica brasileira Thaisa Bergmann, que ouviu do pai: “mulher precisa escolher uma profissão em que dê para trabalhar só meio turno” , ainda assim, seguiu adiante e fez uma grande contribuição à pesquisa sobre buracos-negros.

Recomendo muito a série (tem no Netflix!) e mais ainda esse episódio (dá para ver avulso sem problemas de compreensão). Cosmos é apresentada por Neil deGrasse Tyson, astrofísico que já sambou na cara da sociedade quando perguntaram “qual o problema com mulheres e ciência?”. A resposta dele é ma-ra-vi-lho-sa e imperdível.