Preâmbulo às instruções para usar um smartphone

Ph: Michael Davis-Burchat

Pense nisto: quando dão a você de presente um smartphone estão dando um pequeno inferno faiscante, uma tela de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o celular, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, da maçã e com tela de cristal; não dão de presente somente esse miúdo peso que você atracará ao bolso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser agarrado a seu corpo como uma pessoinha desesperada colada à sua mão. Dão a necessidade de carregá-lo todos os dias, a obrigação de colocá-lo na tomada para que continue sendo um smartphone; dão a obsessão de olhar as notificações a todo instante, as redes sociais, as mensagens. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu smartphone aos outros smartphones. Não dão um celular, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do smartphone.

Há muitos anos, Julio Cortázar escreveu “Preâmbulo às Instruções para dar Corda no Relógio“. Com a maior deferência, fiz essa humilde releitura. Dedico a todes que, como eu, são escravos dessas incríveis (e também terríveis) telinhas.

Foto: Michael Davis-Burchat

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One comment on “Preâmbulo às instruções para usar um smartphone

  1. guara says:

    escravos da comunicabilidade!