Sobre baleias

– Pai, não existe mágica de verdade no mundo, né?

– Como assim?

– Você sabe, como elfos, essas coisas. As pessoas apenas inventaram.

– E se eu te contasse uma história sobre como no fundo do oceano existia um mamífero gigante que usava sonar e cantava músicas e que era tão grande que o coração dele era do tamanho de um carro e você poderia engatinhar pelas artérias? Quero dizer, você acharia isso bem mágico, certo?! 

Diálogo do filme Boyhood. Tradução livre minha.

Estela Miazzi

Há algumas noites, uma orca* me visitou em sonho. Vivia em um tanque, tinha um cão como amigo e eles faziam um truque: ela saltava para fora, ele saltava em cima dela e eles mergulhavam. Era uma orca igual a que falou comigo qualquer coisa que eu não lembro, de dentro de um tanque em formato de tubo, em outro sonho. Ela me olhou nos olhos, nunca mais esqueci. Isso foi há quase 20 anos. Talvez seja a mesma. Talvez sempre seja ela quando quem me vem aos sonhos não são jubarte ou cachalote.

Um dia, depois de ler O Velho e O Mar, me pus a pensar no quanto as baleias nadam. Milhares de quilômetros pelo globo. Nesse dia, comecei a odiar os parques de animais marinhos. Foi também quando comecei a me sentir não de mau humor, não irritada; mas aflita em ficar presa dentro de carros em trânsitos muito lentos ou parados. Lembro de uma manhã em especial, em que no congestionamento, pensei: eu, presa por opção em uma caixa de metal, enquanto baleias atravessam oceanos. Me deu uma angústia. Me desfiz do carro, comprei uma bicicleta.

Com alguma frequência, quando estou imersa no emaranhado de coisas que o cotidiano coloca e tudo parece muito maior que eu, lembro que não importa o que aconteça, as baleias seguem nadando em oceanos imensos, em vários lugares do mundo. Um amigo me ajudou a tirar minha cachalote dos sonhos para materializá-la na minha perna. Talvez como lembrete para me colocar em perspectiva sempre.

Procurei no Google e sites de “mitologia” me dizem que baleias “são símbolo de renascimento, do mito iniciático, um tipo de renovação espiritual ou metafísica.” Citam Pinóquio e Jonas, que ficou três dias e três noites na barriga de uma baleia, para voltar como um novo homem. Foi um Jonas que acabou por inspirar o nome desse blog**, quando eu cantarolava mentalmente a música, debaixo do chuveiro. A verdade, caro telespectador, é que não sei te explicar de um jeito preciso de onde vem minha relação com baleias. Talvez, saindo daqui de dentro, um dia, eu saiba. Talvez você perceba. Talvez eu te conte.

Dentro da baleia a vida é tão mais fácil,
Nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas.
Quando o tempo é mau, a tempestade fica de fora,
A baleia é mais segura que um grande navio.

*A rigor, a orca é um golfinho, mas no meu imaginário (e no coletivo também), a ideia com a qual eu cresci é de que é baleia.

**Nas buscas, descobri um livro de George Orwell com o mesmo nome, mas aí é outra história.

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4 comments on “Sobre baleias

  1. Márcia says:

    Volta ao mundo blogueiro em grande estilo, Larissa. Tem me feito falta esse estilo “antigo” de bloggar, es-cre-ven-do. E as baleias são intrigantes demais. Keep writing. Beijo

    • Larissa says:

      Eeee, valeu, Márcia! Brigada, pela visita e pelo incentivo. É bom voltar a escrever pro mundo e desse jeito mais pessoal também. Um beijo, a casa é sua!

  2. Lauriana says:

    Oi! Conheci tua página no grupo do Decola!
    Estou encantada com seu texto, é de uma sensibilidade linda <3
    Vou seguir te acompanhando! Sucesso! 🙂

    • Larissa says:

      Oi, Lauriana! Que massa que você veio aqui e que gostou! Obrigada pelo incentivo e bem-vinda! Um beijo! 🙂