Sobre ser Selvática e subverter regras

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Embaixo d’água, com a respiração suspensa, a única coisa que consigo escutar é um ruído contínuo, surdo, abafado. Estar na banheira vazia foi como um mergulho. Ao entrar, prendi a respiração e afundei. Deitada nela, meus ouvidos zuniam e, então, taparam. Meu coração batia tão forte que me fazia vibrar inteira. Era o único som que eu ouvia perfeitamente. Tum. Tum. Tum. As instruções de Beto, a voz de Jua, a conversa das mulheres no terraço, tudo soava tão distante que eu mal conseguia assimilar. Respirei fundo e me desprendi.

Na banheira do pequeno latifúndio eu mergulhei na minha liberdade. Ao sair, assinei minha alforria.


Entre o “eu topo” e a foto, foram dias de frio na barriga e ansiedade. Dias de pensamentos recorrentes que iam desde aos clássicos “o que vão pensar? o que vão falar?” a “isso pode me prejudicar no futuro? Pode ser usado contra mim de alguma forma?”. Em conversas com outras mulheres, as mesmas dúvidas, os mesmos medos. Um bloqueio real incutido na minha cabeça e na de tantas mulheres por uma cultura que nos sexualiza ao máximo, nos aprisiona, nos desnaturaliza, tornando até um gesto simples como a amamentação em algo ofensivo.

“Para mim que sofri e sei que muitas mulheres sofreram alguma forma de constrangimento por simplesmente amamentar seu filho em público (um horror), numa tentativa de castração do corpo, a ideia de participar de um ensaio que visava expor os seios de mulheres e desvinculá-los da sexualização do corpo feminino, me parecia muito oportuna. De cara pedi a Beto que eu toparia participar sob a condição de meu filho estar junto a mim. Eu fui muito na instiga de registrar que os seios são uma fonte de alimento mesmo, no meu caso.” (Clara, uma das fotografadas)

Apesar de todos os medos, segui em frente com a motivação de lutar contra a auto-censura imposta pela sociedade que vê meu corpo com maus olhos. O resultado desse mergulho sem camisa é estar entre outras mulheres de peitos e mentes abertas em uma “ação-arte-manifesto” por nossa liberdade. E se isso isso é ser “subversiva”, aceito a pecha. Prefiro isso que entrar na fila do “porque é assim mesmo”. Meu desejo é um só: que cada vez mais pessoas percebam o corpo como natural, bonito, livre.

selva

Selváticas não é um trabalho erótico (ou seja: uma representação explícita da sexualidade), como não é a capa do disco de Karina Buhr, censurada no Facebook, como não eram tantas imagens compartilhadas em apoio à cantora e mesmo assim sofreram bloqueios. O seio, o corpo, per si, não são eróticos. Comparar imagens de seios de mulheres ao natural a cenas de sexo não é só um equívoco, como serve brutalmente a uma sociedade, a um conjunto de regras que nos castram a todos (homens também). Foi para contestar esse tipo de pensamento, para subverter essas regras – que norteiam, inclusive, o Facebook – que tantas pessoas tiraram a camisa em prol da capa de Karina. Por isso, surgiu o Selváticas.

“selváticas me toca fundo pois estamos falando de liberdade. não só da liberdade nas redes sociais mas na vida, a real. depois que saí do pequeno latifúndio me peguei pensando nas mil censuras que a gente se auto impõe de forma tão natural que nem se dá conta.. fiquei com medo da repercussão, do comentário da parte da família mais careta e dos machistinhas desse meu recife província. e no trabalho, como seria? e o namorado, o que acharia? senti vergonha do meu corpo. sim. senti. eu que tanto falo sobre aceitar o corpo, viver o corpo, ser o corpo.. entrei em crise, mas não pensei em desistir.. resolvi enfrentar.. e sentir o que fosse preciso. hoje vendo isso publicado sinto um negócio tão forte que me encheu de certeza que eu não poderia ter feito outra coisa a não ser viver isso, todo o processo, da empolgação em mobilizar as mulher toda, do frio da barriga de quando entrei na banheira, da insônia absurda do medo que senti, até agora, nesse êxtase que sinto.. me permitir esse encontro comigo mesma foi transformador.” (Pri, uma das fotografadas)

Em tempo: O corpo sou eu, o peito sou eu, faço o que eu quiser. Eu sou livre, você é livre (inclusive para não tirar a camisa, se assim preferir). Ser um corpo e ter peito é normal, todos somos, todos temos.

Escrito ao som do novo disco de Karina Buhr, Selvática.

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