Futebol feminino e o machismo nos espaços de jogo

Eles costumavam jogar vôlei na quadra do condomínio às terças. Era quarta-feira e nos reunimos pela primeira vez para começar um grupo fixo de futebol feminino. Estávamos em cinco, ele chegou com mais dois homens e instalou a rede para começar a partida deles, como se nem estivéssemos presentes. Foi ali que a maioria de nós se conheceu: quando tivemos que reivindicar o direito de jogar na quadra. 

Aurora FC Futebol Feminino Recife
Registro do nosso segundo encontro, depois de mobilização nas redes sociais.

A nossa partida estava marcada há dias por uma das jogadoras, moradora do condomínio. Ele disse que a prioridade era dele. Gritou com a gente e informou não se importar e que eram eles que iriam jogaria. Gritamos de volta, a vez era nossa, íamos lutar por ela. Ele debochou: “Toda irritadinha”. Os outros que o acompanhavam fingiram que não viam as agressões ou tentavam silenciar nosso grupo: “melhor vocês não discutirem”. As crianças, expulsas do espaço como fomos do nosso lado, igualmente revoltadas com a injustiça. Perdemos. 

Decidimos que ia ter jogo de qualquer maneira e, assim, chegamos à quadra da Rua da Aurora, que já estava ocupada por uma partida de futebol masculino. Checamos com eles que hora terminava. Decidimos aguardar e montamos barrinha no estacionamento do lado, onde marcamos os primeiros gols. Esperamos por mais de uma hora e quando perguntamos que hora terminava recebemos respostas irônicas e desdém. Mais uma vez, sem direito a uma quadra. 

Pensamos que em um dia diferente da semana poderia ser mais fácil conseguir um horário livre e voltamos à Aurora na segunda-feira seguinte. Chegando lá, nova disputa a ser travada. Um outro grupo masculino forçava seu jogo em vez do nosso, mesmo o nosso grupo tendo chegado antes à quadra. “Nós temos mais direito que vocês. É questão de hierarquia”, um deles disse. Hierarquia? Sim, a “hierarquia” fruto do machismo, que dá mais direito aos espaços de jogo a homens do que a mulheres. Simplesmente porque são homens, nada mais. 

É só observar as quadras, campos e espaços públicos de esportes em diversos locais para ver que eles são muito mais ocupados por homens. A “hierarquia” que o nosso “rival” evocou está implícita e quem, como nós, resolver desafiá-la vai precisar de muita energia. Sentimos o peso dessa negação do espaço, da opressão dos “donos da quadra” mais de uma vez e por uma coisa que parece muito simples: jogar bola.  

Isso aconteceu há pouco mais de um ano. Desde então, semanalmente, o nosso grupo joga às segundas na quadra pela qual tivemos que lutar mais de uma vez. A pelada ganhou mais integrantes e nome: Aurora F.C. O machismo tentou nos afastar do espaço público, nos calar, nos impedir de jogar. Nós ocupamos, resistimos e persistimos! #JogaPraElas

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